Dostoievski era um idealista, acreditava que a
literatura poderia transformar a humanidade, em alguns momentos ele nos lembra
do pensador suíço Rousseau, isto porque Jean-Jacques Rousseau foi o mais
didático de todos os filósofos, apensar da profundidade de suas considerações,
ele tentava expor suas ideias de maneira que todos, até mesmo os mais humildes,
pudessem entende-lo, e Rousseau foi muito bem sucedido em seu intento, tanto
que muitos acreditam que seu trabalho cooperou inclusive para que a revolução
francesa fosse deflagrada, pois anos antes da revolução os ideais de Rousseau
haviam conquistado as ruas. Dostoievski compartilhava deste mesmo ideal, ele
desejava transmitir os conceitos mais profundos para todos, até mesmo os
excluídos pela sociedade, mas ao invés de escrever tratados sobre a organização
da sociedade como fez Rousseau, ele se propôs a escrever romances. E nesta hora
Dostoievski nos faz recordar de Jesus Cristo, isto porque quando lemos os
textos dos evangelhos, percebemos que Jesus fazia exatamente isto, ele contava
histórias, onde conseguia expor os conceitos mais profundos a respeito da
existência humana, de maneira que até
mesmo os pescadores humildes que ganhavam a vida no mar da Galiléia, conseguiam
entender suas ideias.
Por
isto ele é considerado tanto romancista como filósofo, porque seus romances são
verdadeiros tratados filosóficos, e ele expunha conceitos que eram cuidadosamente
diluídos nas tramas apresentadas, e a forma como ele apresentava os
acontecimentos tornava absolutamente clara a mensagem transmitia, desta forma ele
conseguia popularizar como ninguém conceitos
sociais, culturais e filosóficos.
Dostoievski
era de Moscou, tendo nascido em 1821, mas passou quase toda sua vida em São
Petersburgo, vindo a falecer em 1881 aos 59 anos de idade.
Em muitos aspectos,
sua vida lembra a trajetória de vida de seu contemporâneo francês Victor Hugo, ambos
nasceram na primeira metade do século XIX, ambos tinham uma boa condição
social, mas ambos se incomodavam e se comoviam com a pobreza, de maneira que
ambos mesmo sendo filhos da elite, não estavam alheios a luta dos mais pobres.
Curiosamente
ambos acabaram tendo que passar um tempo no exílio por terem criticado a
autoridade de seus países; mas apesar de
questionadores quanto as condições de vida dos mais pobres, nenhum dos dois
encampou as ideias de Karl Marx, os dois eram defensores dos direitos humanos
mas não faziam necessariamente coro as ideias de marxistas. Ambos eram cristãos convictos mas não se enquadravam no cristianismo conforme suas igrejas determinavam, ambos acreditavam
que a empatia e a capacidade humana de se sensibilizar mediante a dor do
semelhante, seria a grande força motriz que iria resgatar nossa humanidade.
Todavia
enquanto Victor Hugo nos Miseráveis, percebia o risco que era o fato dos ricos
viverem propositadamente alheios as condições sociais dos mais humildes;
Dostoievski percebia um risco ainda muito maior para a sociedade, e não apenas
a sociedade russa, mas para todo o mundo. Ele anteviu que o ser humano estava
encampando uma visão equivocada que foi construída a partir do surgimento do
evolucionismo, e entendeu que esta leitura equivocada de um conceito científico
criaria nas pessoas a perspectiva do que a evolução surge quando o mais forte
massacra o mais fraco, obviamente esta visão totalmente equivocada tirava do
homem toda a capacidade de sentir empatia, e isto seria fatal, pois perderíamos
nossa própria humanidade, e na verdade perderíamos nossa própria identidade.
Então
enquanto Hugo se lançou numa cruzada para revelar o rosto dos mais pobres,
Dostoievski se lançou numa cruzada para revelar o rosto de quem acreditava que
estava destinado a ser um homem superior aos demais.
Todavia
apensar das semelhanças entre estes dois gênios da literatura, devemos lembrar
que os russos são um povo mais sanguíneo e por vezes mais radicais em suas
ações, talvez por terem aprendido a viver em condições climáticas extremas,
eles acabam por vezes agindo de forma mais extrema; sendo assim enquanto Victor
Hugo foi exilado na ilha de Jersey, e apesar do exílio, pôde levar uma vida
confortável podendo levar consigo a família e a amante, Dostoievski foi mandado
para a Sibéria, viveu dias terríveis, sofreu graves problemas de saúde por
causa das condições climáticas, e teve que enfrentar a hostilidade dos outros
exilados, quase todos pobres, enquanto ele vinha de uma família abastada.
Contudo
o horror sofrido por Dostoievski começou ainda bem antes de ser mandado para o
exílio, pois quando ele e seus amigos foram presos, o governo do czar Nicolau I
encenou que tanto o jovem Dostoievski quanto seus amigos, seriam fuzilados.
Dostoievski fazia parte de um grupo chamado "O Circulo de
Petrashevski" , eram todos jovens de classe média alta que questionavam a
forma como o governo russo lidava com os mais pobres e os direitos civis, em
abril de 1849 todos foram presos, mas como eram todos filhos da elite, a
intenção não era condena-los ao fuzilamento, mas causar neles medo e terror,
para que interrompessem seus intentos, então com aquela sutiliza que é peculiar
muitas vezes ao povo russo, as autoridades de São Petersburgo encenaram que
eles seriam fuzilados, chegaram a ser levados para o campo de fuzilamento,
quando chegou um oficial determinando que ao invés de serem fuzilados eles
seriam exilados na Sibéria, como disse tudo não passou de uma encenação, mas tanto
Dostoievski quanto seus amigos realmente acreditaram que suas vidas teriam
chegado ao fim.
Obviamente
nem a encenação de que seria morto, nem o exílio, tiraram dele o ímpeto de enfrentar
as mazelas sociais de sua povo. Todavia os momentos terríveis no exílio fizeram
com sua escrita fosse ainda mais fundo na alma humana. Quando lançou seu
primeiro livro em 1846 chamado "Gente Pobre" ele estava com apenas
vinte e cinco anos, e pretendia denunciar a vida das pessoas miseráveis de São
Petersburgo. Ele publicou mais alguns livros contos e novelas antes de ser
preso, com o exílio ele interrompeu sua obra literária e ficou praticamente dez
anos sem produzir nenhum trabalho, e mesmo depois de ter deixado a Sibéria em
1854, ele levou ainda muito tempo para voltar a escrever, até porque as
condições terríveis prejudicaram muito
sua saúde, ele passou a sofrer terríveis ataques de epilepsia.
Então
somente em 1859 ele voltou a sua produção literária quando lançou a novela
"O Sonho de Um Tio", mas este livro já revela um outro Dostoievski, ele
entendia que precisava ir muito além que simplesmente denunciar as terríveis
condições dos mais pobres e pregar um modelo mais justo de sociedade, seu
objetivo agora era tentar fazer com os seus leitores fossem capazes de
confrontar suas próprias realidades.
Nesta
novela, O Sonho do Tio, Dostoievski narra sobre uma família que investe alto
para que a jovem de nome Zina, se case com um importante membro da nobreza, acreditando
que desta forma iria assegurar o futuro da moça, todavia o príncipe era um
jovem vazio.
Dostoievski não apenas registra o carater fraco do príncipe, mas ele denuncia que toda a família do príncipe, e na verdade grande parte da elite e da coorte, era vazia oca, incapaz de empatia, voltados unicamente aos seus próprios interesses, e se articulavam como egocêntricos sociopatas para atender seus prazeres e seus mimos.
Neste livro o Dostoievski que surge
após o exílio é aquele que questiona os valores do próprio homem. No livro a mãe de Zina, uma mulher chamada Maria Aliesándrovna crê que arrumando este bom partido para a filha, irá dar a ela uma vida muito boa, mas Dostoievski ironiza esta visão, revelando que os pobres desejam chegar ao nível da elite, mas a elite não tem nada para oferecer.
Mas o texto não tem uma fluência pesada, porque Dostoievski é irônico, de maneira que muitas vezes ele é cômico, é na verdade uma grande sátira, mas através desta sátira Dostoievski questiona os objetivos do próprio homem, ele
confronta o ser humano com seus objetivos e sem dúvida tenta despertar o homem
para o autoconhecimento.
Mas devemos notar que ele percebe este autoconhecimento na medida em que o ser humano investiga seus objetivos, isto também pode ser percebido no clássico deste mesmo autor chamado "Crime e Castigo". Parece que na visão de Dostoiévski, o ser humano pode se perceber, e reconhecer seu verdadeiro "eu" quando analisa seus objetivos de vida. Então o que dizer destas pessoas que acreditavam que o grande futuro de Zina seria fazer parte daquela família de execráveis enquanto casada com um marido boçal? Desta forma ele denuncia o homem a partir de seus propósitos.
Isto também como disse, pode ser facilmente percebido no texto de "Crime e Castigo", neste clássico, Dostoiévski nos apresenta a Raskolnikov, um jovem universitário com sonhos de grandeza, então Raskólnikov concebe o que seria um homem extraordinário, mas no correr do livro ele acaba se vendo sendo chantageado por um homem chamado Svidrigailov, que era casado, pedófilo, e chantageia Raskolnikov para ter a irmã de Raskolnikov em sua cama. Ao se ver sendo afrontado por este homem detestável, ele pôde perceber como o projeto de humanidade e o "eu" que ele objetivava ser, era um verdadeiro lixo humano.
Dostoiévski percebe que para o homem conhecer a si mesmo, deve fazer uma auto análise, e investigar a coerência de seus objetivos e propósitos de sua vida.
Mas voltando ao texto do "Sonho do Tio", neste livro também ele estava denunciando que já naquela época, 1859, o ser humano priorizava o "ter", e não o "ser", pois se o grande objetivo deles era ver a moça casada dentro daquele contexto, era porque para eles era mais importante o que ela teria como bens, do que o que ela seria como ser humano.
Mas devemos notar que ele percebe este autoconhecimento na medida em que o ser humano investiga seus objetivos, isto também pode ser percebido no clássico deste mesmo autor chamado "Crime e Castigo". Parece que na visão de Dostoiévski, o ser humano pode se perceber, e reconhecer seu verdadeiro "eu" quando analisa seus objetivos de vida. Então o que dizer destas pessoas que acreditavam que o grande futuro de Zina seria fazer parte daquela família de execráveis enquanto casada com um marido boçal? Desta forma ele denuncia o homem a partir de seus propósitos.
Isto também como disse, pode ser facilmente percebido no texto de "Crime e Castigo", neste clássico, Dostoiévski nos apresenta a Raskolnikov, um jovem universitário com sonhos de grandeza, então Raskólnikov concebe o que seria um homem extraordinário, mas no correr do livro ele acaba se vendo sendo chantageado por um homem chamado Svidrigailov, que era casado, pedófilo, e chantageia Raskolnikov para ter a irmã de Raskolnikov em sua cama. Ao se ver sendo afrontado por este homem detestável, ele pôde perceber como o projeto de humanidade e o "eu" que ele objetivava ser, era um verdadeiro lixo humano.
Dostoiévski percebe que para o homem conhecer a si mesmo, deve fazer uma auto análise, e investigar a coerência de seus objetivos e propósitos de sua vida.
Mas voltando ao texto do "Sonho do Tio", neste livro também ele estava denunciando que já naquela época, 1859, o ser humano priorizava o "ter", e não o "ser", pois se o grande objetivo deles era ver a moça casada dentro daquele contexto, era porque para eles era mais importante o que ela teria como bens, do que o que ela seria como ser humano.
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